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A arte como canal de transformação


Collage Arte

Desde criança eu sentia no corpo que o único motivo que me sustentava nesta humanidade caótica era criar arte. Um lugar seguro para explorar aquelas profundezas desconfortáveis, que não podiam se expressar em palavras, mas se revelavam em outros idiomas.


Não era simples, porque em meio a tanta loucura eu precisava viver entre mandatos e um “dever ser” que nunca me cabia.


Essa vontade de ser artista não caiu muito bem dentro da família. Existe a ideia do artista pobre que me consome. Uma ideia profundamente enraizada na cultura, nas sociedades, nas pessoas. A arte é venerada, mas ao mesmo tempo é rejeitada.


Se a humanidade soubesse que sobrevivemos a tudo, que trazemos consciência para os curiosos, para aqueles que querem transformar a própria vida de algum modo, e que, em alguns casos, dizemos aquilo que ninguém ousa dizer...


Imaginem por um minuto um mundo sem livros, sem música, sem dança, sem pinturas, sem artesanatos, sem filmes, sem teatro, sem histórias que funcionam como espelhos para nos mostrar aquilo que tanto tentamos proteger ou esconder. Não haveria nada sobre o que falar, nada para compartilhar.


Comecei muito jovem a estudar teatro, queria ser atriz. Foram muitos anos explorando esse caminho, escrevendo, dirigindo. Amo o teatro, ele tem uma magia especial, cria momentos únicos e próximos do outro.


Depois estudei cinema. Também escrevi e dirigi curtas-metragens; para muitos, eu tinha me tornado uma promessa. Lembro-me de um professor, grande diretor argentino, que me disse: “você vai se cansar de dirigir”. Apenas sorri. Eu teria amado, mas não tinha tanta confiança em mim mesma e era muito boa produzindo, resolvendo problemas. Basicamente, o que fiz a vida toda: lidar com imprevistos, administrar recursos e inventar soluções. Trabalhei em televisão, cinema, publicidade.

Minha vida no mundo artístico se sustentou na intermitência e em trabalhos temporários.

E um dia, enquanto escrevia minha ópera prima, com a ilusão de fazer um grande filme, aconteceram coisas. Tudo que eu escrevia começou a revelar uma história familiar que eu não conhecia. Cheguei a escrever uma cena muito complexa sobre algo que aconteceu na minha família, quando eu nem existia, e sobre o qual ninguém jamais havia falado. Assustei-me tanto que parei de escrever. Porque cada vez que escrevia, algo precisava vir à luz. Algo que precisava ser visto. Foi avassalador. Mas foi então que me perguntei tantas coisas e entendi que eu era um canal, que a informação vinha de um lugar para se tornar luz.


O mesmo aconteceu com o mundo da arte visual. É ancestral: minha avó materna escultora, minha tia pintora, e eu que cresci entre tintas e exposições, e aquele hobby que se tornou meu resgate.


E quando me bloqueei com o filme, comecei a fazer colagem, para destravar aquela história que nunca pude contar. E foi aí que comecei a juntar pedaços de mim, da minha história, recortando o que estava à mão, o que surgia no meu caminho. E percebi que o que eu estava fazendo era reunir minhas partes e dar-lhes outro sentido.


Foi assim que começou meu caminho de alquimia.


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